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A Jornada Incrível de Raabe: De Muros que Caem à Linhagem do Messias

    raabe

    Quando pensamos nos heróis da fé registrados na Bíblia, nossa mente frequentemente nos leva a nomes como Abraão, Moisés ou Davi. São patriarcas, libertadores e reis. No entanto, escondida nas muralhas de uma cidade condenada, encontramos uma das figuras mais improváveis e, ainda assim, mais impactantes da narrativa bíblica: Raabe.

    A história dela, registrada principalmente no livro de Josué, é muito mais do que um conto de espionagem e guerra; é uma demonstração profunda da soberania de Deus, da natureza da fé verdadeira e do poder escandaloso da graça. Em um mundo que frequentemente julga pelo exterior, pela reputação ou pelo passado, a jornada de Raabe é um farol de esperança. Ela nos mostra que ninguém está fora do alcance do plano redentor de Deus, e que a fé, mesmo que inicial e imperfeita, é a chave que abre as portas da salvação.

    Iniciar um estudo bíblico de Raabe exige que deixemos de lado nossas noções preconcebidas. A Bíblia não esconde sua profissão; ela é apresentada em Josué 2:1 como uma “mulher prostituta”. Em nossa cultura, e mais ainda naquela época, esse rótulo a colocava na margem mais baixa da sociedade. Ela não era apenas uma gentia, uma cananeia vivendo em Jericó — uma cidade sinônimo de idolatria e oposição a Deus — mas também uma mulher cuja subsistência era considerada moralmente falida.

    E foi exatamente para a casa dela que os dois espias israelitas, enviados por Josué, decidiram ir. Esta escolha, que à primeira vista parece imprudente, era divinamente estratégica. A casa de Raabe, situada sobre o próprio muro da cidade, era um local de trânsito, um lugar onde estranhos poderiam se misturar sem levantar suspeitas imediatas, e, crucialmente, o lar de um coração que Deus já estava preparando.

    A narrativa de Raabe nos força a confrontar uma verdade desconfortável: Deus opera de maneiras que desafiam nossa lógica humana e nossos padrões de retidão. Ele não escolheu a pessoa mais piedosa de Jericó (se é que havia alguma); Ele escolheu alguém que o mundo havia descartado. Este artigo não vai apenas recontar a história. Vamos mergulhar fundo no caráter, nas motivações e no legado teológico desta mulher extraordinária.

    Vamos analisar como sua fé foi formada, como ela agiu corajosamente com base nessa fé, e como essa mesma fé não apenas salvou sua vida, mas a inseriu de forma indelével na linhagem do próprio Messias, Jesus Cristo. Prepare-se para descobrir como a jornada de Raabe é um evangelho em miniatura, provando que a graça de Deus é maior do que qualquer muro que possamos construir, seja ele de pedra ou de pecado.

    O Contexto de Jericó: Mais do que Apenas Muralhas

    Para entender a magnitude da decisão de Raabe, precisamos primeiro entender o mundo em que ela vivia. Jericó não era uma cidade qualquer. Era uma das cidades mais antigas e continuamente habitadas do mundo, uma fortaleza estratégica que guardava a entrada principal da terra de Canaã a oeste do rio Jordão. Suas muralhas, famosas por serem duplas e imponentes, não eram apenas uma defesa física; eram um símbolo de poderio militar e orgulho cultural. Jericó representava tudo o que se opunha a Israel e ao Deus de Israel.

    Era um centro de comércio, mas também um centro de idolatria cananeia, uma cultura que Deus havia julgado e cuja “medida da iniquidade” estava cheia (Gênesis 15:16). A ordem de Deus para Israel era clara: a cidade deveria ser completamente destruída (cherem), dedicada ao juízo divino.

    Viver em Jericó naquela época era viver sob uma tensão palpável. O “terror” de Israel havia caído sobre todos os habitantes (Josué 2:9). Eles tinham ouvido os relatos: como o Deus de Israel havia dividido o Mar Vermelho décadas antes e, mais recentemente, como Ele havia aniquilado os poderosos reis amorreus, Seom e Ogue.

    Para a maioria dos habitantes de Jericó, esse terror levava ao desespero e à resistência entrincheirada. Eles confiavam em suas muralhas, em seus exércitos e em seus deuses. Eles se preparavam para a guerra, fechando os portões para que “ninguém saísse nem entrasse” (Josué 6:1). A atmosfera era de medo, mas também de desafio. A cidade inteira estava unida em sua rebelião contra o Deus que reivindicava aquela terra.

    É neste cenário de condenação iminente e pânico coletivo que encontramos Raabe. A Bíblia a chama de zonah em hebraico, uma palavra que é inequivocamente traduzida como “prostituta” ou “meretriz”. Alguns estudiosos tentaram suavizar isso, sugerindo que ela era apenas uma “estalajadeira”, já que sua casa funcionava como uma pousada. Embora seja provável que sua casa fosse de fato uma estalagem (um local lógico para espiões), o texto não foge do termo mais forte. Isso é teologicamente significativo.

    A Bíblia não limpa o passado de Raabe para torná-la uma heroína mais palatável. Ela é apresentada com todas as suas falhas, vivendo uma vida de marginalização. Como mulher em uma sociedade patriarcal e como prostituta, ela não tinha status, poder ou voz. Ela era uma “ninguém” em uma cidade condenada, o que torna sua subsequente confissão de fé e seu papel na história da salvação ainda mais impressionantes.

    O Encontro Decisivo: A Fé Audaciosa de Raabe

    A chegada dos dois espias à casa de Raabe é o ponto de virada. Assim que eles entram, o rei de Jericó é notificado. A rede de informações da cidade era eficiente, e a presença de estranhos israelitas foi imediatamente percebida. O rei envia guardas à casa de Raabe com uma ordem direta: “Traze para fora os homens que vieram a ti, e entraram em tua casa; porque vieram espiar toda a terra” (Josué 2:3). Este é o momento do teste.

    Raabe está presa entre o poder temporal de seu rei e sua cidade, e a convicção crescente sobre o poder do Deus de Israel. Uma escolha errada significaria sua morte imediata, muito provavelmente como traidora. Ela não teve tempo para um longo debate teológico ou para pesar todas as opções. Ela teve que agir.

    E ela age com uma rapidez e astúcia impressionantes. Raabe esconde os homens no terraço, debaixo de feixes de linho que estavam secando (um detalhe que confere grande autenticidade à narrativa), e enfrenta os guardas do rei com uma mentira calculada. Ela admite que os homens estiveram lá, mas diz que já partiram ao anoitecer, pouco antes de os portões da cidade se fecharem, e insinua que, se os guardas se apressarem, poderão alcançá-los. A mentira funciona, e os guardas saem em perseguição.

    Teologicamente, a “mentira” de Raabe tem sido debatida por séculos. Foi um pecado? O que vemos aqui é um princípio bíblico de “lealdade superior”. Assim como as parteiras hebraicas no Egito mentiram ao Faraó para salvar os bebês (Êxodo 1), Raabe mente às autoridades de Jericó para preservar a vida dos servos de Deus. Ela estava transferindo sua lealdade. Sua ação não foi celebrada por causa da mentira, mas apesar dela; foi celebrada como um ato de fé que escolheu Deus em vez dos homens, mesmo com grande risco pessoal.

    A Confissão de Fé de Raabe (Josué 2:9-11)

    O momento mais crucial deste estudo bíblico de Raabe acontece no terraço, após os guardas partirem. Ela sobe para falar com os espias, e o que ela diz é uma das confissões de fé mais notáveis de todo o Antigo Testamento. Ela não fala por medo ou oportunismo; ela fala com convicção teológica. Primeiro, ela declara: “Eu sei que o SENHOR vos deu esta terra”. Ela não diz “seu Deus”, mas usa o nome pactual de Deus, YHWH (SENHOR). Ela, uma pagã, reconhece a autoridade e o decreto de Deus sobre Canaã.

    Em seguida, ela explica por que sabe disso: “pois ouvimos que o SENHOR secou as águas do Mar Vermelho… e o que fizestes aos dois reis…”. A fé de Raabe veio pelo ouvir (Romanos 10:17). Ela pegou os mesmos relatos que aterrorizaram o resto de Jericó e os interpretou corretamente. Enquanto o rei e o povo viram apenas uma ameaça militar, Raabe viu a mão de um Deus todo-poderoso.

    Sua confissão atinge o clímax em Josué 2:11: “…porque o SENHOR vosso Deus é Deus em cima nos céus e em baixo na terra.” Esta é uma declaração monoteísta radical. Vinda de uma mulher imersa em uma cultura politeísta, que adorava Baal, Aserá e uma infinidade de deuses locais, esta afirmação é teologicamente explosiva. Ela está renunciando a todo o panteão cananeu. Ela declara que YHWH não é apenas um deus, ou mesmo o deus mais forte; Ele é o único Deus verdadeiro, soberano sobre toda a criação.

    Esta fé, nascida do testemunho e cultivada em um coração improvável, é o que a separa de sua cidade condenada. Ela não estava apenas tentando salvar sua pele; ela estava se aliando ao Deus vitorioso que ela agora reconhecia como o único soberano. Foi com base nesta fé que ela negociou a salvação de sua família.

    Leia Também: Apocalipse 13 e a Marca da Besta: Um Olhar Atento à Era Digital e Suas Implicações Profética

    O Símbolo do Fio de Escarlate: Salvação à Vista de Todos

    Tendo declarado sua fé e protegido os espias, Raabe faz um pedido. Ela não pede riqueza ou status; ela pede chesed (um termo hebraico que significa lealdade pactual, misericórdia, bondade) para sua família, assim como ela demonstrou chesed aos espias. Ela pede que, quando Israel tomar a cidade, sua família — pai, mãe, irmãos e todos os parentes — seja poupada. Os espias concordam e fazem um juramento.

    Mas essa aliança precisa de um sinal. Eles lhe dão uma instrução específica: “Ata este cordão de fio de escarlate à janela pela qual nos fizeste descer; e recolhe contigo em casa teu pai, e tua mãe, e teus irmãos, e toda a família de teu pai” (Josué 2:18). Este fio não era um amuleto mágico; era o sinal visível de uma aliança feita e da fé de quem a fez.

    O simbolismo do fio de escarlate é uma das tipologias mais ricas da Bíblia. É impossível para um leitor atento não fazer a conexão imediata com o evento fundador de Israel: a Páscoa no Egito (Êxodo 12). Lá, os israelitas foram instruídos a marcar os umbrais de suas portas com o sangue de um cordeiro. O sangue era o sinal para que o anjo da destruição “passasse por cima” daquela casa, poupando os primogênitos do juízo.

    Aqui, em Jericó, Raabe, uma gentia, é instruída a marcar sua casa com um “fio de sangue” (a cor escarlate). Este fio pendurado na janela, visível para o exército invasor, era o seu sinal de salvação. Em ambos os casos, a salvação veio através de um sinal de obediência (o sangue/o fio) que apontava para a fé na promessa de Deus de livramento do juízo.

    Este fio também aponta profeticamente para o futuro, para o sangue de Jesus Cristo, o “Cordeiro de Deus” que tira o pecado do mundo. O escarlate, a cor do sangue e da expiação, torna-se o símbolo da redenção disponível para todos, judeus ou gentios, que se agarram à promessa de Deus pela fé. A salvação de Raabe não era incondicional. Ela tinha uma parte a cumprir, que demonstrava a validade de sua fé: ela deveria amarrar o fio e manter toda a sua família dentro da casa. Se alguém saísse, o juramento seria quebrado e eles morreriam com o resto da cidade. Isso levanta questões interessantes sobre a segurança da salvação.

    A promessa era certa, mas a participação de Raabe era essencial. Como explora o artigo “Salvo para Sempre ou em Risco? O Papel do Livre-Arbítrio na Jornada da Fé Cristã”, a fé genuína sempre envolve uma resposta de obediência e perseverança. Raabe teve que exercer seu livre-arbítrio para confiar na promessa e permanecer sob o sinal da aliança.

    Além disso, o fio de escarlate contrasta fortemente com outros “sinais” bíblicos, especialmente os de julgamento. O fio era um sinal de identificação com o povo de Deus, garantindo proteção contra a ira vindoura. Em uma leitura escatológica, isso serve como um poderoso contraponto ao que vemos em profecias futuras.

    Enquanto o mundo se prepara para um julgamento final, a humanidade será dividida entre aqueles que têm o selo de Deus e aqueles que recebem a marca da besta. Como detalhado em “Apocalipse 13 e a Marca da Besta: Um Olhar Atento à Era Digital e Suas Implicações Proféticas”, a marca do sistema do mundo leva à perdição, mas o “fio de escarlate” da fé em Cristo identifica aqueles que serão salvos do juízo. A escolha de Raabe foi a de se identificar com Deus, e esse sinal visível foi sua salvação.

    A Queda de Jericó e o Cumprimento da Promessa

    Depois que os espias partem, Raabe fica para trás. A narrativa bíblica avança, os israelitas cruzam milagrosamente o Jordão e se preparam para o cerco. Podemos apenas imaginar o que se passava na mente de Raabe durante os dias seguintes. Ela tinha o juramento dos espias, mas agora toda a sua cidade estava em alerta máximo. Então, o cerco começa, mas de uma forma bizarra: os exércitos de Israel simplesmente marcham ao redor da cidade em silêncio uma vez por dia, durante seis dias. Imagine a confusão e o escárnio dentro de Jericó.

    Os soldados nas muralhas devem ter zombado. Mas para Raabe, cada dia de marcha silenciosa deve ter sido um teste angustiante de fé. Ela tinha que manter o fio na janela, manter sua família reunida e confiar que a promessa seria cumprida, mesmo quando nada parecia estar acontecendo.

    Essa espera paciente e vigilante é um eco poderoso da instrução de Jesus à Sua igreja. Em Mateus 24, Jesus adverte Seus discípulos sobre os sinais do fim dos tempos, concluindo com a ordem: “Vigiai, pois!”. Assim como Raabe teve que vigiar e esperar pela salvação prometida enquanto o mundo ao seu redor continuava em sua rotina de rebelião, a igreja é chamada a viver em um estado de prontidão.

    O artigo “‘Vigiai!’: A Mensagem Central de Mateus 24 para a Igreja de Hoje” nos lembra que a vigilância não é uma espera passiva, mas uma fé ativa, confiando que Deus cumprirá Sua palavra no tempo certo. A fé de Raabe foi testada não apenas no momento da crise (esconder os espias), mas na espera perseverante pelo cumprimento da promessa.

    No sétimo dia, tudo muda. O exército marcha sete vezes, as trombetas soam, o povo grita e, como Deus prometeu, as muralhas de Jericó “caíram rente ao chão” (Josué 6:20). A física da destruição é impressionante; as muralhas desabaram sobre si mesmas, permitindo que o exército entrasse. É provável que a seção da muralha onde a casa de Raabe estava — marcada pelo fio escarlate — tenha sido a única parte que permaneceu de pé, um milagre visível de proteção em meio à devastação total.

    O juízo sobre Jericó foi completo, mas a graça para com Raabe foi igualmente completa. Josué dá uma ordem específica: “Ide à casa da mulher prostituta, e tirai-a de lá com tudo quanto tiver, como lhe jurastes” (Josué 6:22). Os mesmos dois espias que ela salvou agora a resgatam, trazendo-a para fora junto com seu pai, mãe, irmãos e todos os seus parentes, colocando-os em segurança “fora do arraial de Israel”.

    Este detalhe — “fora do arraial” — é importante. Inicialmente, ela e sua família, como gentios, eram cerimonialmente impuros e não podiam entrar imediatamente no acampamento. No entanto, o texto conclui com uma nota poderosa: “Josué poupou a vida de Raabe, a prostituta… e ela habitou no meio de Israel até ao dia de hoje” (Josué 6:25).

    Este não foi um resgate temporário; foi uma adoção permanente. Raabe e sua família passaram por um processo de purificação e foram totalmente enxertados na nação de Israel. A mulher que começou como uma pária gentia em uma cidade condenada tornou-se parte do povo da aliança. Ela foi salva de Jericó para ser salva em Israel. Isso demonstra que o plano de Deus sempre incluiu a redenção dos gentios que se voltassem para Ele em fé.

    O Legado de Raabe: Da Genealogia à Galeria da Fé

    A história de Raabe poderia ter terminado ali, registrada como uma nota de rodapé fascinante em uma conquista militar. Mas o Espírito Santo garantiu que seu legado fosse cimentado na história da redenção de duas maneiras extraordinárias no Novo Testamento. Ela não foi apenas salva; ela foi honrada. A graça que a tirou de Jericó também a elevou a uma posição de honra duradoura, provando que Deus não apenas perdoa o passado, mas o redime e o usa para Seus propósitos gloriosos. O legado de Raabe é tão vital quanto sua história inicial, pois mostra o “depois” da salvação e o impacto de longo prazo de uma única vida de fé.

    Raabe na Genealogia de Jesus (Mateus 1:5)

    A primeira menção surpreendente ocorre na abertura do Novo Testamento, no primeiro capítulo do Evangelho de Mateus. Ao traçar a genealogia de Jesus Cristo para estabelecer Sua linhagem real, Mateus faz algo altamente incomum para as genealogias judaicas: ele inclui mulheres. E não mulheres “perfeitas”. Ele lista quatro (além de Maria): Tamar (que se passou por prostituta para enganar seu sogro), Raabe (a prostituta de Jericó), Rute (uma moabita, de um povo inimigo) e “a que fora mulher de Urias”, Bate-Seba (uma adúltera).

    A inclusão de Raabe aqui é chocante. O registro diz: “Salmom gerou Boaz de Raabe“. Isso significa que a ex-prostituta cananeia se casou com um israelita (Salmom, provavelmente um dos espias ou um líder) e se tornou a mãe de Boaz, o respeitado “resgatador” de Rute. Isso a torna a trisavó do Rei Davi e, portanto, uma ancestral direta do Messias, Jesus.

    A teologia por trás disso é profunda. Mateus, escrevendo para um público judeu, está deliberadamente mostrando que a linhagem do Messias não é “pura” pelos padrões humanos. Deus intencionalmente teceu na tapeçaria de Sua vinda histórias de graça escandalosa, de pecado e redenção, e de inclusão de gentios.

    A presença de Raabe na genealogia de Jesus é um testemunho eterno de que o Salvador veio para pessoas como Raabe. Ele não veio para os justos, mas para os pecadores (Marcos 2:17). O sangue de uma gentia com um passado moralmente questionável corre nas veias do Messias, provando que Sua salvação transcende raça, passado e pecado. A graça de Deus não apenas cobriu o passado de Raabe; ela o redimiu e o tornou parte essencial da maior história já contada.

    Raabe na Galeria da Fé (Hebreus 11:31)

    Se Mateus honra sua linhagem, o livro de Hebreus honra sua fé. No capítulo 11, frequentemente chamado de “A Galeria da Fé”, o autor lista os grandes heróis do Antigo Testamento que viveram pela fé. E ali, entre Abraão, Isaque, Jacó e Moisés, encontramos: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hebreus 11:31). Note o que é enfatizado: “pela fé”.

    O autor não menciona sua mentira, sua profissão não é escondida (pelo contrário, é usada para magnificar a graça), mas sua fé é destacada como o agente de sua salvação. Sua fé a separou dos “incrédulos” (ou “desobedientes”) de Jericó. O resto da cidade ouviu os mesmos relatos sobre Deus, mas eles responderam com desobediência e resistência. Raabe ouviu e respondeu com fé e acolhimento. Ela é colocada como um paradigma de fé salvadora.

    Raabe como Exemplo de Obras (Tiago 2:25)

    Finalmente, Raabe aparece em um terceiro lugar crucial, no livro de Tiago, em um argumento sobre a natureza da fé genuína. Tiago está combatendo a ideia de que a fé pode ser uma mera concordância intelectual, desprovida de ação. Ele usa dois exemplos improváveis para provar seu ponto: o maior patriarca, Abraão, e a prostituta gentia, Raabe. “E de igual modo, não foi Raabe, a meretriz, justificada também pelas obras, quando acolheu os emissários, e os fez sair por outro caminho?” (Tiago 2:25).

    À primeira vista, isso parece contradizer Hebreus (“pela fé”) e Paulo (“justificados pela fé, não por obras”). Mas Tiago está complementando, não contradizendo. O ponto de Tiago é que a fé que Raabe professou (sua confissão em Josué 2) foi provada como genuína por suas ações (esconder os espias, arriscar sua vida). A fé dela não era “morta”. Era uma fé viva, que agia. Ela foi justificada (declarada justa) no momento em que creu, mas foi justificada (provada justa) diante dos homens e da história pelas obras que sua fé produziu. A fé de Raabe e suas obras eram dois lados da mesma moeda da redenção.

    Conclusão: O Fio da Graça que Nos Alcança

    O estudo bíblico de Raabe é uma das lições mais poderosas sobre a natureza de Deus encontradas em toda a Escritura. É a história de uma mulher que deveria ter sido a primeira a ser destruída, mas que, pela graça, se tornou um exemplo eterno de fé. Ela era a pessoa errada, na cidade errada, na profissão errada, mas ela tinha a fé certa no Deus certo.

    A jornada de Raabe de uma prostituta em uma muralha condenada para um lugar de honra na genealogia do Messias e na galeria da fé é a própria história do Evangelho. É a prova de que Deus não está procurando pessoas perfeitas; Ele está procurando pessoas que, ao ouvirem quem Ele é e o que Ele fez, estejam dispostas a abandonar sua confiança em “muralhas” e se agarrar ao “fio de escarlate” da Sua promessa.

    A história de Raabe nos desafia em múltiplos níveis. Desafia nosso legalismo, mostrando que a graça de Deus se estende aos lugares mais sombrios. Desafia nossa falta de fé, mostrando como uma pagã com informações de segunda mão demonstrou mais fé do que muitos que andaram com Deus. E desafia nossa passividade, mostrando que a fé verdadeira age, assume riscos e se alinha corajosamente com os propósitos de Deus, não importa o custo pessoal.

    Raabe nos ensina que nosso passado não define nosso futuro na economia de Deus. A única coisa que importa é nossa resposta à Sua revelação. Ela ouviu, creu e agiu. Que possamos fazer o mesmo, confiando que o mesmo Deus que salvou Raabe do juízo é poderoso para nos salvar e nos usar em Sua incrível história de redenção.

    A jornada dela é um lembrete vívido de que ninguém está tão perdido que não possa ser encontrado, ninguém está tão quebrado que não possa ser restaurado, e ninguém está tão marginalizado que não possa ser central para o plano de Deus. A história de Raabe não é sobre a virtude dela; é sobre a vastidão da misericórdia de Deus.


    Perguntas para Reflexão e Comentário

    A história de Raabe é incrivelmente rica. Gostaríamos muito de ouvir sua opinião:

    1. Qual aspecto da fé de Raabe mais te desafia pessoalmente: sua coragem em arriscar a vida, sua confissão teológica ou sua perseverança durante o cerco de Jericó?
    2. Como a inclusão de Raabe na genealogia de Jesus muda sua perspectiva sobre a graça de Deus e sobre como Ele usa pessoas com passados complicados?
    3. Você consegue ver “muralhas de Jericó” em sua própria vida ou na cultura ao seu redor? Como a história de Raabe o inspira a confiar em Deus em vez de confiar nessas muralhas?

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    FAQ: Perguntas Frequentes sobre Raabe

    P: Raabe pecou ao mentir para os guardas do rei? R: Este é um debate ético clássico. A maioria dos teólogos entende que a Bíblia não elogia a mentira de Raabe, mas sim o ato de fé que a motivou. Ela escolheu uma “lealdade superior” — proteger os servos de Deus e se alinhar com Seu plano — em detrimento da lealdade a um rei pagão e uma cidade condenada. Hebreus 11:31 e Tiago 2:25 celebram sua fé e suas obras (acolher os espias), não o método específico que ela usou para protegê-los.

    P: Raabe era realmente uma prostituta ou apenas uma estalajadeira? R: A palavra hebraica usada (zonah) refere-se consistentemente a uma prostituta. Embora sua casa funcionasse como uma estalagem (um lugar lógico para viajantes/espias), o Novo Testamento (Hebreus e Tiago) usa o termo grego porne (de onde vem “pornografia”), que também significa prostituta. A Bíblia não suaviza seu passado, pois isso diminuiria o poder da graça de Deus que a redimiu.

    P: O que o “fio de escarlate” simboliza? R: O fio de escarlate serviu como o sinal físico da aliança que os espias fizeram com Raabe. Teologicamente, ele é um poderoso “tipo” ou prefiguração de salvação. Sua cor vermelha (escarlate) aponta para o sangue: primeiro, para o sangue do cordeiro da Páscoa, que salvou os israelitas do juízo no Egito; e, em última instância, para o sangue de Jesus Cristo, que é o único meio de salvação do juízo final para todos os que creem.

    P: Raabe é a mesma “Raabe” (ou Raab) mencionada no Salmo 89:10? R: Não. Esta é uma fonte comum de confusão. O nome “Raabe” (com a grafia hebraica Rachav) pertence à mulher de Jericó. O nome “Raabe” (com a grafia Rahav) usado nos Salmos (89:10) e em Isaías (51:9) é um termo poético hebraico que se refere a um monstro marinho ou ao caos, usado como um nome simbólico para o Egito, representando o orgulho e o poder que Deus subjugou. São duas palavras e conceitos completamente diferentes, que soam parecidos em português.

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